Eco - aldeia/ Comunidade no Sudoeste

Comunidade - porquê?




No corpo humano, saúde é a cooperação harmoniosa de todas as células. Isto significa que todas as células cumprem as respectivas tarefas. Cada célula serve as outras e é servida por elas.
Em contrapartida, muitas doenças começam quando uma célula ”enlouquece” e só se preocupa com o bem-estar dela própria sem se preocupar com os efeitos disto para o organismo (obviamente existe uma acção recíproca, logo que o organismo exerce diversas influências sobre as células individuais).
A sociedade humana parece-me encontrar-se, presentemente, num tal estado de doença. Oiço dizer que enriquecimento económico, ultimamente egoísmo, significaria satisfação para o ser humano.
Traduzindo para o corpo humano, a mensagem seria:
    - Estimadas células, podem todas transformar-se em células cancerosas e reclamar o máximo espaço possível dentro do corpo, não se preocupem com a sua função original. – O resultado é bem visível e do conhecimento comum: através do trabalho assíduo das numerosas células cancerosas, a situação na Terra é muito problemática.
É urgente voltar a um estado saudável. No nível humano isto significava: em todos os níveis de interacção – relações entre mulheres e homens, famílias, os empregados de fábricas, vilas, cidades, nações – devia começar um processo de reflexão. Cada membro devia fazer as perguntas: “Qual o meu papel? Como é que eu posso melhor servir a comunidade?”
“Servir”- a palavra não parece muito actual, tem conotações com servidão, ser escravo. Não está na moda. Mesmo assim, eu acredito que a finalidade da vida humana é isto – servir. Isto, na minha opinião, não constitui contradição nenhuma com “gozar a vida”. Satisfação autêntica nasce assim – de servir bem.


Comunidade - como é que eu a imagino, o que é que ela devia fazer?

Comunidade podia ser definida assim: um sítio onde se juntam seres humanos para se ajudar mutuamente de se tornar cada vez claros, mais livres de receios e angústias e assim cada vez mais capazes de revelar o “essencial” de cada um. Este “essencial” está sempre ligado com uma actividade que ultrapassa os limites da pessoa individual, que serve outros. Comunidade significa também: um local onde seres humanos tentam conviver em paz com todos os outros seres vivos. Não vai ser possível implementar isto duma só vez. Por exemplo, automóveis não respeitam muito os seres vivos. Mesmo assim, teremos que nos servir deles por mais algum tempo. Então teremos de usá-los o menos possível e também pesquisar sobre diversas formas de diminuir os seus efeitos negativos. O mesmo é valido em muitas outras áreas.    

    De modo geral eu digo: Ao consumirmos produtos e serviços prestados, assumimos uma responsabilidade. Ficamos responsáveis pelas condições de produção, as condições técnicas, sociais, etc. (e. g: se consumirmos madeiras tropicais, somos responsáveis pelas florestas tropicais e as condições de vida dos trabalhadores florestais destas áreas).

    Para assumir esta responsabilidade, acho necessário tentar conseguir um elevado grau de auto-suficiência.

    Penso que é necessario uma comunidade definir alvos positivos em todas as áreas: alimentação, agricultura, construção de casas, transporte, educação, saúde, etc.

    Em seguida será preciso elaborar planos para realizar e financiar estes alvos. Nesta fase, é essencial prática nas respectivas áreas.

    Nalgumas áreas, como a agricultura e construção de casas, parece-me que não será muito difícil atingir resultados concretos com alguma brevidade.

    Em outras áreas, como a educação, por exemplo, irá demorar algum tempo. Para se criar uma escola, é preciso um número mínimo de crianças, adultos com empenho e também sabedoria e dinheiro.

    Comunidade significa: seres humanos que voltam a ter consciência que constituem parte da Natureza. Não é a ideia que o ser humano constitua a “coroa da criação” que tem direitos ilimitados para desgastar e poluir, mas ver-se como guardião deste planeta. Isto significa encorajar variedade, criar e suportar muitas formas de vida. Aqui na região sudoeste de Portugal significa concretamente: criar lagos, barragens, pêgos. Onde há água aparecem plantas e animais.

    Também é preciso criar florestas e matas com muitas espécies. Convém combater a desertificação criada pela “companhia de trigo” do regime de Salazar e a plantação indiscriminada do eucalipto.

    Estas áreas estão investigadas: onde houver mais água irão crescer mais árvores. Onde houver mais árvores o solo irá armazenar mais água, o lençol de água tem tendência a subir.

    Comunidade é: incorporar as diferentes idades a viver num local. Para conseguir isso, uma escola faz muita falta. Escola para mim devia ser uma instituição que permitisse às crianças de conhecer a vida real e participar nela; que não iria sobrecarregar os alunos com conhecimentos teóricos, mas sim iria incentivar de sair das salas e aprender coisas práticas.

    Para mim pessoalmente, como pai de duas crianças, parece um ideia muito atraente haver a possibilidade de encontrar os meus filhos durante o dia e poder partilhar a minha vida com eles em vez de passarem o dia a quilómetros de mim.

    É essencial haver filhos. Os jovens irão construir o novo mundo, duma maneira mais radical que nós. Temos que lhes dar tudo que faz falta para isso - liberdade e regras.

    Também as pessoas idosas com as sua sabedoria e habilidades tem que ter lugar e a possibilidade de participar na vida quotidiana da comunidade.

Por último: É muito importante ter prazer no que se faz – todos os dias. Eu tenho a tendência de me esquecer disto no meio de tantas tarefas e na aguda urgência de resolver tantos problemas…

    Acho isto um direito fundamental do homem: trabalhas, não para algum patrão devolver algum crédito, por obrigação, mas sim pelo genuíno prazer na tarefa. Olhar para uma horta bem lavrada ou para um muro bem construído e saber: “Está bem feito”. E estás ciente de ter produzido um bem ou um serviço que satisfaz uma autêntica necessidade humana.

Ligado com isto é a necessidade renegar uma certa independência. Em vez de ser dependente de especialistas anónimos quase em todas das áreas da vida, como é costume no mundo moderno, tentar satisfazer as necessidades básicas dentro da comunidade.

    Comunidade também é: um local onde se pratica solidariedade entre membros. Todos têm que receber os apoios e o suporte dos quais precisam. Em troca, terão que disponibilizar a sua energia e empenho, a sua experiência e sabedoria à comunidade.

    Comunidade deveria ser: um local onde se juntam pessoas que querem efectuar um trabalho curativo nos diversos níveis – social, ecológico, económico, etc. – e precisam de mútuo nesta tarefa difícil.

Da teoria à prática

Posso imaginar que há gente a ler isto diz: Está tudo muito bem, esta “lenga-lenga” teorética, mas como é que o gajo acha que isto irá funcionar na prática? Então vamos a isto:
    O primeiro passo será encontrar uns indivíduos corajosos que disponham dos meios financeiros necessários para comprar terreno adequado. Eu adorava construir um corpo jurídico como uma associação etc. que permitisse que mais tarde se possam juntar mais pessoas ao projecto.
    Porém, acho importante não começar logo a declarar o socialismo total, mas sim criar parcelas individuais onde os proprietários podem proceder a criar habitações individuais. De qualquer maneira, é necessário contactar a câmara e outras entidades e corpos administrativos envolvidos antes da compra dum terreno e dizer duma forma aberta: “Nós pretendemos realizar aqui este projecto, qual é a sua ideia e opinião?”
    Há uns meses visitei uma propriedade que tem condições para uma Eco-aldeia. Tem mais de 200 ha. O preço pedido é 1 milhão de euros. Conforme o regulamento em vigor, deveria ser possível construir perto de 4.000metros quadrados de área urbana e de armazém respectivamente. Isto tem que ser verificado com a câmara, naturalmente.
    Para transformar este terreno, será preciso muito empenho e dinheiro. Existem umas ruínas não recuperáveis.
    Assim, tem que se criar tudo – edifícios, poços, abastecimentos de energia, etc. Uma larga parte do solo é arável, mas empobrecido e a água não é muita.
    Portanto, as tarefas são muitas. Não me parece valer a pena entrar aqui em mais pormenores. Quem quiser saber mais contacte-me!

Algumas ideias minhas sobre os primeiros passos

Acho necessário haver uma “constituição” um conceito fundamental que define como queremos tratar o terreno e o que queremos lá desenvolver – um sonho comum.
    O aspecto comum deve ser traduzido para a prática logo do início,  através de actividades comunais como trabalhos agrícolas e a construção de edifícios para servir a comunidade.
    Por outro lado, acho importante haver habitações particulares. Tem que haver áreas “privadas” para as pessoas poderem descansar das actividades colectivas e viver como indivíduos ou famílias ou ainda simplesmente gozar de algum sossego na Natureza.
    Acho importante todos os membros terem contacto com o solo duma forma regular e serem capazes de ajudar nas tarefas agrícolas. Para além de beneficiar a saúde física, isto cria uma certa humildade e um autêntico contacto com a terra.
    Capacidades artesanais têm uma importância semelhante. É desejável que todos os membros terem conhecimentos curativos etc. Pertencem a isto também.
    Todas as tarefas e trabalhos efectuados têm o mesmo valor. Um pátio bem varrido vale tanto como um novo software ou um muro construído.
    Têm de ser tornadas precauções contra a formação de uma classe de funcionários parasitários. Trabalhos dos quais ninguém gosta – Por ex:. Limpar os sanitários – deviam ser distribuídos numa base rotativa – todos têm de participar.
    Caros leitores, estou ainda ciente que há centenas de aspectos de Comunidades/Eco - aldeias dos quais nem toquei ainda.
    A minha intenção é apenas despertar a vossa atenção e tomar pública a minha intenção.
    Aguardo as suas críticas, propostas e contactos.
    Acabei de comprar um computador e ter e-mail, mas as minhas capacidades nesta área ainda são muito limitadas. O meu e-mail é: mikepor13@yahoo.de.
    A maneira mais rápida de me contactar é através do telefone: 967885440.
    A seguir vem uma parte “autobiográfica”, a qual decidi retirar do texto para este se tornar mais curto.
    Porém, como gostava de mostrar isto às pessoas, vou pedir para  dactilografar esta parte também. Obrigado.

    Bem, para não deixar isto anónimo, vou dizer algumas coisas sobre mim próprio: chamo-me Michael Dütz, tenho 48 anos e vivo em Portugal desde 1985.
     Olhando à minha volta, só vejo problemas sem fim de natureza ecológica, social, política, etc. Visto isto levanta-se a pergunta se nós iremos conseguir alterar o nosso comportamento duma forma que nos permite continuar a viver neste planeta. Acho que para conseguirmos isto temos que juntar as nossas capacidades e resolver os nossos problemas em conjunto.
    Bem, voltando a mim:
    Já como jovem descobri que gosto muito de mexer no solo, plantar e semear e tratar de animais. Depois de acabar a escola, passei 6 meses em Israel, num “Kibbaz”.
    A seguir, com quatro pessoas, tentei fazer a vida duma forma auto-suficiente: produzimos uma grande parte dos nossos alimentos pelas nossas próprias mãos. O dinheiro que fez falta ganhamos a trabalhar na renovação de casas.
    Pela vontade de comprar algum terreno próprio (que era demasiado caro na Alemanha) cheguei a Portugal.
    Chegado aqui, comprei um terreno e comecei a semeá-lo. Como isto não me deu rendimento, comecei a trabalhar na construção civil. Durante alguns anos isto tornou-se a minha actividade principal. Ganhei muitas experiências nesta área, também trabalhei com a taipa e fardos de palha.
    Com o passar dos anos, fiquei ciente que ter uma fazenda nesta zona montanhosa exige não só cultivação das terras aráveis, mas também cuidar das encostas – fazer limpezas de mato com regularidade, plantar árvores, etc. Isto dá muito trabalho.
    Tenho dois filhos: um filho, nascido em 1994 e uma filha, nascida em 2000.
Criá-los não tem sido sempre fácil. As dificuldades envolvidas neste processo levaram-me a reconhecer que em todos os seres vivos e até determinados locais existe uma certa energia. Desta energia resultaram acções, limitações e possibilidades. Para alterar e melhorar as coisas, em primeiro lugar é preciso apercebermo-nos desta energia. Em seguida pode-se tentar influenciá-la duma forma positiva. Existem várias maneiras de traduzir isto para a prática. Porém, por falta de espaço, não vou entrar nesta matéria aqui.
    Cheguei à conclusão que não basta viver duma maneira, “politicamente correcta”. Muita gente tenta fazer isso, mas não ficam mais felizes por isso. Todos nós temos muitas dores e até angústias. A maior parte delas ficam suprimidas. É preciso reconhecer a existência destas dores e angústias e confrontá-las, senão ficamos guiados por elas. Isto é um processo difícil. É preciso um espaço protectivo, no qual outras pessoas podem dar suporte e assistência para nos ajudar a conseguir isso.
    Acho que neste processo – a transformação das dores e angústias – um dos resultados será que as pessoas saibam reconhecer o significado de acontecimentos graves na vida deles. Um outro resultado poderá ser a revelação de qual é afinal o nosso papel, até a missão na vida de cada um. Ultimamente, esta parece-me ser a questão fundamental: “Qual é a minha tarefa aqui neste planeta?”